diary

Borboletas na Barriga

O nervosismo aumenta à medida que a hora se aproxima. Já não dá para fingir que aquilo não é importante, não dá para esconder que não me incomoda. As borboletas na barriga, já as consigo sentir a esvoaçarem no meu estômago. Começo a questionar-me se trouxe a roupa certa, tenho um laço preto no colarinho da minha camisa branca e o colete, também, branco de pêlo, honestamente, não me aquece o suficiente. A insegurança começa a tomar conta da minha auto-estima.

Decido ir a pé assim que saio do comboio, andar sempre me fez bem nestas situações, ou talvez sejam as ruas de Lisboa que me acalmam, não sei bem.

(…)

Não pensei voltar novamente áquele lugar, tinha um agradável cheiro no ar e o soalho antigo refletia os raios de sol, o que normalmente me deixa com uma felicidade estúpida, mas não hoje. As minhas mãos estavam gélidas mas suadas, odiava aquela sensação. O mundo parecia ter parado ali dentro e eu era a única pessoa que tinha as mãos a tremer e até mesmo o meu cabelo expelia eletricidade estática.

Mas eu tinha a certeza que era ali que eu queria estar, tinha a certeza que era ali que eu pertencia. Tinha a certeza

Bom dia Vanessa, como está?

Acabo por me levantar da cadeira onde estava sentada, parecia uma eternidade, e assim começa a entrevista.

Standard
diary

A história que acabou antes de começar

Já não havia mais nada, a realidade é que nunca houve. Mas tudo foi tão definitivo. Tudo acabou mesmo ali, tudo acabou mesmo antes de começar. Foi como se tivéssemos terminado uma relação que nunca tinha tido inicio. Se tivesse sido noutro tempo, numa outra altura com uma outra idade. Talvez tivesse sido diferente, mas a verdade é que não foi.
Sabes, gostava que me tivesses decifrado com o olhar como costumavas tentar fazer. Gostava que tivéssemos tido mais tempo, mais tempo para tudo. Para me conheceres, para me tocares, para me teres dado aquele beijo que não era suposto acontecer e que ambos queríamos. Gostava de ter tido tempo para realmente te mostrar os meus olhos. Gostava de te ter perguntado tanta coisa ao invés de mentir e dizer que não tinha nada mais a dizer.
Mas não houve tempo. Não houve oportunidade. Não houve, quase, nada.

Acabamos sempre por voltar ao sitio onde fomos felizes. E eu voltei. Tudo estava no mesmo sitio, o candelabro antigo continuava a iluminar pouco, e continuavam a servir o café nas chávenas antigas que eu tanto gostava. A senhora continuava com o seu charme pitoresco e com um sorriso amoroso. A música era a mesma, como se não tivéssemos nunca saído de lá, admito que desde aquele dia que não consigo ouvir jazz, recorda-me demasiado a tua voz.

Vou ter saudades de tudo o que não vivi contigo. Saudades dos beijos que nunca aconteceram, saudades do teu toque. Mas, acima de tudo, vou ter saudades de sorrir a meio do dia por ti.

Até um dia princesa disseste tu.
E assim foi.

Standard
diary

Carta a ti

(…)

Às vezes ainda procuro por ti num rosto desconhecido. Às vezes encontro gestos teus em alguém que não és tu. Às vezes, se eu fechar os olhos, ainda te consigo ouvir rir. Mas não é possível, não porque é humanamente impossível, mas porque não me recordo do timbre da tua voz, e por mais que me tente lembrar de como soava não consigo. Dizem que é a primeira coisa que se perde, a primeira coisa que se esquece. Devem ter razão, até porque nos agarramos a tudo o resto com unhas e dentes para que mais nada se perca.

A última coisa que te disse foi beijinho despedi-me de ti com um único beijo. Seco. Sem sentimento. Ás vezes ponho-me a pensar que se soubesse que não nos veríamos mais o que te diria? Não sei. Mas ter-te-ia dito o quanto gosto, o quanto gostava de ti – é sempre difícil saber que tempos verbais usar. Nunca se quer parecer demasiado lunática – mas a realidade é que já nada disso importa porque já não estás aqui, já não te tenho.

Sabes, lembro-me demasiado bem dessa noite. Estava a falar com a Margarida e recordo-me que lhe confidenciei que não conseguia adormecer, que me sentia ansiosa. Uns minutos mais e lá teimei em fechar novamente os olhos, até que o telefone toca e tudo mudou. Tudo mudou porque já não estávamos no mesmo mundo. Já não co-existiamos na mesma atmosfera Já não partilhávamos o mesmo ar, já não partilhávamos nada. Fim. Não chorei. Sentei-me na cama e não chorei. Acho que só me apercebi da realidade dias depois, semanas depois. Talvez tenha sido meses depois. Não sei ao certo. Não tive ninguém a quem anunciar que não dormia, caí na banalidade de ser a rocha. Caí na banalidade de ligar o piloto automático. Tudo se desmoronou e eu intacta no meu pedestal. Sempre gozaste comigo por isso não foi? Mas conheces-me, passado horas; dias; semanas; meses tudo passou, as pessoas seguiram em frente, começaram a sorrir, começaram a esquecer. E eu…

E eu a ser muito eu.

Standard