diary

Carta a ti

(…)

Às vezes ainda procuro por ti num rosto desconhecido. Às vezes encontro gestos teus em alguém que não és tu. Às vezes, se eu fechar os olhos, ainda te consigo ouvir rir. Mas não é possível, não porque é humanamente impossível, mas porque não me recordo do timbre da tua voz, e por mais que me tente lembrar de como soava não consigo. Dizem que é a primeira coisa que se perde, a primeira coisa que se esquece. Devem ter razão, até porque nos agarramos a tudo o resto com unhas e dentes para que mais nada se perca.

A última coisa que te disse foi beijinho despedi-me de ti com um único beijo. Seco. Sem sentimento. Ás vezes ponho-me a pensar que se soubesse que não nos veríamos mais o que te diria? Não sei. Mas ter-te-ia dito o quanto gosto, o quanto gostava de ti – é sempre difícil saber que tempos verbais usar. Nunca se quer parecer demasiado lunática – mas a realidade é que já nada disso importa porque já não estás aqui, já não te tenho.

Sabes, lembro-me demasiado bem dessa noite. Estava a falar com a Margarida e recordo-me que lhe confidenciei que não conseguia adormecer, que me sentia ansiosa. Uns minutos mais e lá teimei em fechar novamente os olhos, até que o telefone toca e tudo mudou. Tudo mudou porque já não estávamos no mesmo mundo. Já não co-existiamos na mesma atmosfera Já não partilhávamos o mesmo ar, já não partilhávamos nada. Fim. Não chorei. Sentei-me na cama e não chorei. Acho que só me apercebi da realidade dias depois, semanas depois. Talvez tenha sido meses depois. Não sei ao certo. Não tive ninguém a quem anunciar que não dormia, caí na banalidade de ser a rocha. Caí na banalidade de ligar o piloto automático. Tudo se desmoronou e eu intacta no meu pedestal. Sempre gozaste comigo por isso não foi? Mas conheces-me, passado horas; dias; semanas; meses tudo passou, as pessoas seguiram em frente, começaram a sorrir, começaram a esquecer. E eu…

E eu a ser muito eu.

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15 thoughts on “Carta a ti

  1. É quando o tempo passa, quando a rotina vem outra vez, que nos apercebemos que já não está mais cá. Com o passar do tempo vai custar mais ainda, pelo menos cmg é assim. Mas é também com o passar do tempo que te apercebes que tens uma segunda sombra, alguém que te protege sempre.
    Um grande beijinho

  2. O que mais custa na perda de uma pessoa querida, jovem e muito próxima… é saber que a vida tem de continuar, queremos fazer pausa, não ouvir, não ver, não falar, não mexer… Olhamos em redor como um espectador… achamos cruel, injusto que tudo está normal, quando nada está normal para nós… mas é isso o modo piloto vem ao de cima.
    E olhamo-nos uns outros sem saber o que está por detrás de cada rosto… esta marca não tem cicatriz visível.
    afinal quem vê caras não vê corações, não é?
    beijinhos

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